O secretário de segurança diz que o Rio possui política de segurança... Parece piada pretender que inteligências medianas percebam a implantação de UPPs em algumas favelas como "política de segurança". O tamanho de tal tolice é tão evidente que a repetição de tal discurso chega a doer. Afinal, somente a cidade do Rio de Janeiro possui centenas de áreas cujas características, segundo os critérios que orientam a instalação de Unidades de Polícia Pacificadora, demandariam a medida. E existiria efetivo na PMERJ para tal empreendimento?
A política de implantação de UPPs, como adotada, equivale à ingênua sugestão de alguém que proponha, para que seja evitado o crime, a alocação de dois policiais em cada esquina. Tivesse, somente a cidade do Rio de Janeiro, centenas de milhares de policiais, a questão seria de simples solução! Pois é, a mesma lógica simplista orienta a política de Unidades Pacificadoras como solução para a criminalidade.
E o caso das "pacificações" de áreas na cidade do Rio é ainda mais surreal. As autoridades anunciam com antecedência a "invasão" e permitem que todos os marginais que, até então, dominam a área anunciada vão infestar outros locais - obviamente de menor interesse ou valor político. O saldo de criminosos presos, bem como de armamento apreendido é irrisório ante o poder de fogo conhecido da área considerada.
Desnecessário dizer que, "pacificada" a área e implantada a UPP, as ações de Estado relacionadas à cidadania e à verdadeira ocupação da comunidade não ocorrem. Exceto por algumas medidas "para turista ver", não há melhoria efetiva nas condições sanitárias; não há oferta de creches, escolas e atenção à saúde efetivamente compatível com a demanda; não há programas de orientação familiar... Enfim, a dita política se resume aos efetivos da PMERJ alocados ao programa de polícia pacificadora - em sua maioria passando imensas dificuldades, de toda sorte, como a distância das famílias; a deficiente infraestrutura de apoio; a falta de equipamentos, de vale transporte suficiente, de alimentação saudável e até de água.
Se é assim, como a sociedade engole tanta baboseira da secretaria de segurança? A resposta é simples... Hipocrisia e impotência. Hipocrisia daqueles que residem em áreas a quem a instalação das UPP interessa muito, a exemplo de Ipanema, Botafogo, Flamengo, Copacabana, Leblon, lagoa, Tijuca, São Conrado e diversas outras de relevante interesse (econômico!). Parte dessas pessoas, por razões óbvias e plenamente justificáveis, pretende que a criminalidade não chegue às suas portas, esperando, exigindo mesmo, firme atuação policial na contenção de episódios de violência - como a manifestação oriunda de traficantes do pavão e pavãozinho, que acabou por resultar na morte do dançarino Douglas, também conhecido por DG. A impotência diz respeito aos moradores das áreas para as quais migra a criminalidade temporariamente expulsa pelos processos de pacificação - que experimentam, revoltados e indefesos, o incremento da violência e do crime em suas regiões.
Para quem não entendeu o uso do termo "hipocrisia" em relação aos moradores de áreas nobres, quando feita referência a seu justo interesse por segurança e liberdade de ir e vir, é importante complementar o pensamento. Ocorre que desse mesmo segmento vem a maioria das vozes a acusar a polícia de truculência, de despreparo, da morte de inocentes.
Será que tais pessoas já tentaram se imaginar na pele dos integrantes da PMERJ encarregados de invasões e ocupações? Afinal, em sua maioria, não vivem tais efetivos os problemas do segmento da sociedade beneficiado por seu trabalho, pois são moradores de áreas menos valorizadas e mais distantes. Cumprem sua missão convivendo com deficiências de toda ordem, algumas já citadas anteriormente. Arriscam suas vidas, literalmente, de armas em punho, progredindo em zonas cuja violência supera, não raro, algumas áreas de conflito mundialmente conhecidas, como por exemplo, a "faixa de Gaza". Durante horas a fio ficam sujeitos a intenso fogo oriundo de armas cujo poder de fogo e alcance, cobram demonstrações de coragem e sacrifício a que poucos seriam capazes. Sob as condições de verdadeiro combate a que são obrigados, aliada à arquitetura urbana das favelas, desfavorável a invasões, são forçados a progredir e revidar o fogo. Vale lembrar, nesse ponto, que a prudência recomendaria aos pobres moradores de tais áreas que permanecessem em suas casas, deitados ao solo, enquanto durassem os combates, mas, obviamente, tal não é possível e não ocorre. Pois bem, como resultado dos anos de desenvolvimento irresponsável da ocupação urbana; dos absurdos abismos socioeconômicos; da ousadia do crime organizado; da conivência criminosa de cidadãos de classe média, autodenominados "pacifistas" ou "intelectuais" usuários de drogas - produz-se, ao final, o resultado morte! Morte de criminosos e de inocentes - policiais ou civis. A hipocrisia reside no fato de que, ao final, a fatura relacionada a tantos inocentes mortos recaia, apenas, nos ombros dos Policiais. Deveria, na verdade, recair sobre os responsáveis pela política de segurança pública; sobre os usuários de drogas que alimentam o tráfico; sobre prefeitos que permitiram a formação de verdadeiros guetos, quase inexpugnáveis, nas cidades - muito mais que sobre aqueles que mais se arriscam e que menos ganham com tantos erros.