O país, ainda que sob perspectivas otimistas, vive uma grave crise. O aparelhamento do Estado em nome de um projeto de poder e a consecução, a qualquer custo, de manobras políticas e financeiras para assegurar o prosseguimento desse mesmo projeto colocam em risco a democracia.
A enorme rejeição percebida nas redes sociais e entre a classe média contra a tentativa de instalação de um sistema autoritário - que alguns insistem em não perceber e um grupo ainda maior subestima ou considera criação de mentes assoladas por idéias de conspiração - sequer arranha a camada mais superficial do monstro que avança sobre as liberdades, o Direito, a moralidade e os valores que, até aqui, representam a sociedade brasileira. Afinal, sua força vem de pessoas que do monstro recebem seu sustento, seja o alimento, seja o financiamento de seu ócio, seja o combustível que hipertrofia sua vaidade e seu ego.
Os integrantes dos primeiros escalões dos Poderes Executivo e Legislativo são escolhidos mediante o voto, sem que para postularem tais cargos necessitem comprovar capacidade, ética ou conhecimento. Não sendo assim, a democracia seria restritiva, elitista, ainda mais sujeita à manipulação e impossível de acesso aos mais humildes. De modo oposto, o exercício das funções do Poder Judiciário e do Ministério Público não tem origem em manifestação de mera vontade de quem quer que seja. É decorrência de raríssimo esforço individual na busca do conhecimento, de sólidas e destacadas carreiras construídas no campo do Direito - ou, pelo menos, deveria ser! Os integrantes do Ministério Público e do Judiciário, via de regra, não são eleitos... Prestam concursos rigorosíssimos. Sua elevação aos mais elevados postos se dá por mérito, capacidade, valor profissional. E qual o sentido de tal diferenciação entre os poderes? É simples... Pretende evidenciar o maior compromisso do Judiciário e do Ministério Público com o acerto, com escolhas mais sensatas, com decisões fundadas, em maior proporção, na razão e não na emoção. Significa esperar de tais segmentos atitudes em defesa do arcabouço jurídico, da dogmática - e não da interpretação de anseios coletivos manipuláveis pela mídia ou grupos políticos.
Não é demais lembrar que, destruído o equilíbrio democrático ante a hipertrofia do Executivo, haverá proporcional perda de força, de importância e de sentido na existência de outros poderes. Não se trata de uma ilação desligada da realidade... Trata-se de mera constatação alicerçada na observação da história dos povos... Na vida das sociedades contemporâneas ou daquelas já superadas há mais tempo. E, ante tal observação valem, pelo menos duas observações: A primeira, estaria relacionada ao fato constituir-se a motivação dos homens e mulheres que integram o Judiciário e o Ministério Público, como deveria ser, a busca da justiça, da liberdade e da sujeição dos homens ao império das Leis. Ante tal hipótese, não seria tal ideal compatível com o acobertamento de crimes e com tentativas escancaradas de destruição da democracia. A segunda observação seria aplicável ante a pouco provável hipótese de situar-se a motivação desses mesmos homens e mulheres na vaidade ou na ambição desmedida. Afinal que valor, mérito ou brilho existiria em fazer parte de estruturas sem qualquer poder, autonomia ou independência? Em caso de dúvidas, basta perguntar sobre o Judiciário ou o Ministério Público em Cuba ou Venezuela!
Os crimes estão todos aí... Escancarados, praticados à luz do dia, com a conivência de um Congresso submisso e de estruturas de Estado aparelhadas e cumpridoras de ordens. Ainda assim, os fatos são evidentes. São atentados violentos contra o sistema financeiro e contra investidores; são atos de governo que deveriam estar condicionados a determinadas formalidades e que são praticados sob argumentos e justificativas inaceitáveis; são crimes comuns cuja gravidade é desclassificada ou entendida como inexistente; são enriquecimentos inexplicáveis; são o uso e a manipulação de estruturas do Estado... Enfim, basta querer enxergar, ou melhor, pensar mais no Brasil (ou na própria sobrevivência) que em eventuais vantagens que, não verdade, não são dadas pelo poder - mas vendidas a um preço que, amanhã, poderá representar a própria liberdade ou sobrevivência.
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