Todo crime, segundo o próprio conceito,
possui gravidade, que deverá decorrer, principalmente, do bem protegido pela
norma infringida e da vontade a mover seu agente. Assim, é importante restar
claro que, a despeito de outras considerações técnicas que interferem na
questão da gravidade de determinadas condutas e na culpabilidade dos
responsáveis, pertencer a este ou aquele partido político ou linha
de pensamento (atenção, só pensamento!... Não vale justificar atos terroristas
mediante tal entendimento!) não possui qualquer relação com a gravidade do
delito ou com os esforços no sentido de sua completa apuração.
Pois é, "como as coisas funcionam no Brasil" pretende provocar o questionamento sobre a existência efetiva de alguma forma de aparelhamento do Estado, seja mediante seus instrumentos diretos, como os Poderes Judiciário e Legislativo; o Ministério Público; a Advocacia da União; as instituições policiais e, não sem menor importância, mediante recursos teoricamente livres e autônomos, como a mídia e o jornalismo.
Seu objeto é provocar reflexões sobre a verdade ou a mentira de tal aparelhamento e, ante a conclusão por sua presença, até que limites seria utilizado para tornar menos graves crimes praticados por "companheiros" e mais graves aqueles praticados por adversários ideológicos e políticos. Vale observar que, diante da eventual existência de uma estrutura de patrulhamento ideológico, o cidadão comum, não incluído no grupos dos companheiros ou entre seus adversários, no mínimo, sofre com a falta de prioridade, morosidade e ineficiência com que estruturas, que deveriam ser imparciais e céleres, tratam aquilo que lhes é indiferente.
Para investigar a presença de aparelhamento, bastaria observar a série de denúncias, todas muito graves, envolvendo "companheiros" e seus adversários. Escolhida uma, dentre tantas, o primeiro passo sugerido seria investigar, com certo cuidado, a origem das denúncias ou sobre como o fato se tornou de conhecimento público (ou das autoridades!). Mediante tal análise seriam identificadas a participação de instrumentos na linha de subordinação do governo, seja nos casos relacionados a "companheiros", seja naqueles envolvendo adversários. Do mesmo modo, seria interessante observar a presença de eventuais denúncias intestinas (expressão ótima nesse caso!) ou de acidentes de percurso, impossíveis de serem abafados, que tenham forçado iniciativas no sentido da apuração dos fatos.
Outra análise recomendada diz respeito à
atuação da imprensa e da mídia em geral. Haveria algum tipo de tentativa de nivelamento da gravidade
de crimes de menor envergadura praticado por adversários àqueles de maior
gravidade praticado por "companheiros"? Ou isso seria puro mito? E no caso de crimes praticados por "companheiros", existiria também tal esforço de nivelamento mediante comparação a práticas mais graves? E quanto à cobrança pela apuração de condutas relacionadas a "companheiros" e adversários? Ela se dá de igual modo? As "compreensíveis e naturais" divergências quanto à
verdade gritante dos fatos ou sobre as justificativas apresentadas por agentes
e amigos surgem e são igualmente acolhidas por figuras do governo e parte da imprensa tanto no caso de "companheiros" quanto de adversários?
E quanto às divergências e discussões no âmbito do judiciário? Existe equidade na aplicação da justiça (e obviamente das penas!) a integrantes do grupo de "companheiros" e do grupo de seus adversários?
Finalmente, findos alguns dos espetáculos teatrais que envolveram apurações de fatos notadamente comprovados e danosos à sociedade, vale reparar em favor de qual grupo ocorreram (e seguem ocorrendo) articulados e solidários processos de "apagamento" da memória coletiva quanto aos episódios ocorridos e seus agentes. Vale pesquisar na histórica recente sobre "companheiros" e adversários que, depois de execrados pela opinião pública por práticas ilícitas comprovadas, voltaram a ocupar cargos, funções, postos de importância ou, no mínimo, passaram a conveniente exílio midiático.
Depois de feitas as análises sugeridas,
creio que a maioria concluirá que tudo não passa de mera coincidência e que
não existe qualquer aparelhamento. Finalmente, restará evidente que os
poderes constituídos, a imprensa e os ricos aliados do governo jamais se
permitiriam conspirar contra a democracia ou o interesse público. Viram? Assim as coisas funcionam
no Brasil! (ou não!)
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