Jornal
Brasil Econômico, 4 de dezembro de 2013. Ano 5. N. 1072
Rodrigo Sias
“Fui
liberal. Então, a liberdade era nova no país, estava nas aspirações
de todos, mas não nas leis, não nas idéias práticas. O poder era
tudo. Hoje, porém, é diverso o aspecto da sociedade. Os princípios
democráticos tudo ganharam e muito comprometeram; a sociedade, que
então corria o risco pelo poder, corre agora risco pela
desorganização e pela anarquia. Como então quis, quero hoje
servi-la, quero salvá-la e, por isso, sou conservador. Não sou
trânsfuga, não abandono a causa que defendo no dia de seus
perigos, da sua fraqueza; deixo-a no dia em que tão seguro é o
seu triunfo que até o excesso a compromete.”
O
discurso acima foi pronunciado por Bernardo Pereira de Vasconcelos,
líder do recém-formado Partido Conservador na época do Brasil
Império. Liberal no início de sua trajetória política,
Vasconcellos justificava assim, sua guinada conservadora.
A
transformação de liberais – no sentido clássico – em
conservadores é um fenômeno comum. Um exemplo recente, no Brasil, é
de Rodrigo Constantino Acompanho-o há tempos – em seu blog e
artigos na imprensa - e já li alguns de seus livros.
Embora
gostasse de sua defesa da economia de mercado - tão necessária em
um país onde o Estado é idolatrado como um deus -, sempre
desconfiei de seu ateísmo militante e seu utilitarismo excessivo.
Para
mim, valores tradicionais são mais eficazes em proteger o indivíduo
do que o individualismo, o qual o torna um “átomo” e
enfraquece-o face ao coletivismo militante.
No
entanto, Constantino vem abandonando gradativamente essa posição.
Parece-me que onze anos do petismo no poder foram preponderantes
para ele notar que a plataforma de “liberalismo total”
favorece a esquerda, notadamente, no campo cultural.
Seu
novo livro “Esquerda Caviar” é a prova patente da sua
inflexão ao conservadorismo, entendido aqui, grosso modo, como
a mistura de liberalismo econômico pragmático com tradições e
valores morais.
O
livro é um ensaio demolidor contrário às idéias “progressistas”
mais em voga no Brasil e no mundo e sobre as (im)posturas dos
artistas e intelectuais que as defendem.
Examinando
as bandeiras da esquerda e suas inúmeras contradições, Constantino
bate em diversos ícones, apontando inconsistências caso a caso,
de forma divertida.
Sem
ter um formato acadêmico – o que tiraria seu dinamismo - o livro é
repleto de interessantes citações para apoiar sua análise: Edmund
Burke, Dostoiévski, F. Hayek, G. Orwel, Aldous Huxley, Ortega y
Gasset, Roger Kimball, Thomas Sowel, David Horovitz, Raymond Aron,
Walter Williams, Luiz Pondé, Reinaldo Azevedo, Reinaldo Arenas,
Vargas Llosa e muitos outros. O “reacionário” Nelson
Rodrigues é onipresente.
Senti
falta de E. Voegelin - que identificou nos movimentos de esquerda um
moderno gnosticismo messiânico na busca de um “mundo melhor” -
e, claro, o filósofo Olavo de Carvalho, famoso por criticar a
ideologia socialista.
O
resultado final do livro é um diagnóstico preciso da mentalidade da
esquerda caviar, definida como um grupo de pessoas hipócritas -
movidas por culpa, por vaidade, pela busca por poder etc - que adota
o discurso socialista, mas segue vivendo no melhor dos mundos
oferecido pelo capitalismo.
“Esquerda
Caviar” é leitura obrigatória e muito agradável. Menos para o
pessoal da esquerda.
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