Pontos de vista sobre a Política e sobre o papel de cada um em face de seu exercício. Particularmente, este espaço buscará abordar a percepção do autor sobre o papel dos militares e de segmentos liberais ante as ameaças de totalitarismo socialista em curso no Brasil.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A esquerda caviar e o conservadorismo


Jornal Brasil Econômico, 4 de dezembro de 2013. Ano 5. N. 1072
 
Rodrigo Sias

Fui liberal. Então, a liberdade era nova no país, estava nas aspirações de todos, mas não nas leis, não nas idéias práticas. O poder era tudo. Hoje, porém, é diverso o aspecto da sociedade. Os princípios democráticos tudo ganharam e muito comprometeram; a sociedade, que então corria o risco pelo poder, corre agora risco pela desorganização e pela anarquia. Como então quis, quero hoje servi-la, quero salvá-la e, por isso, sou conservador. Não sou trânsfuga, não abandono a causa que defendo no dia de seus perigos, da sua fraqueza; deixo-a no dia em que tão seguro é o seu triunfo que até o excesso a compromete.”

O discurso acima foi pronunciado por Bernardo Pereira de Vasconcelos, líder do recém-formado Partido Conservador na época do Brasil Império. Liberal no início de sua trajetória política, Vasconcellos justificava assim, sua guinada conservadora.

A transformação de liberais – no sentido clássico – em conservadores é um fenômeno comum. Um exemplo recente, no Brasil, é de Rodrigo Constantino Acompanho-o há tempos – em seu blog e artigos na imprensa - e já li alguns de seus livros.

Embora gostasse de sua defesa da economia de mercado - tão necessária em um país onde o Estado é idolatrado como um deus -, sempre desconfiei de seu ateísmo militante e seu utilitarismo excessivo.

Para mim, valores tradicionais são mais eficazes em proteger o indivíduo do que o individualismo, o qual o torna um “átomo” e enfraquece-o face ao coletivismo militante.

No entanto, Constantino vem abandonando gradativamente essa posição. Parece-me que onze anos do petismo no poder foram preponderantes para ele notar que a plataforma de “liberalismo total” favorece a esquerda, notadamente, no campo cultural.

Seu novo livro “Esquerda Caviar” é a prova patente da sua inflexão ao conservadorismo, entendido aqui, grosso modo, como a mistura de liberalismo econômico pragmático com tradições e valores morais.

O livro é um ensaio demolidor contrário às idéias “progressistas” mais em voga no Brasil e no mundo e sobre as (im)posturas dos artistas e intelectuais que as defendem.

Examinando as bandeiras da esquerda e suas inúmeras contradições, Constantino bate em diversos ícones, apontando inconsistências caso a caso, de forma divertida.

Sem ter um formato acadêmico – o que tiraria seu dinamismo - o livro é repleto de interessantes citações para apoiar sua análise: Edmund Burke, Dostoiévski, F. Hayek, G. Orwel, Aldous Huxley, Ortega y Gasset, Roger Kimball, Thomas Sowel, David Horovitz, Raymond Aron, Walter Williams, Luiz Pondé, Reinaldo Azevedo, Reinaldo Arenas, Vargas Llosa e muitos outros. O “reacionário” Nelson Rodrigues é onipresente.

Senti falta de E. Voegelin - que identificou nos movimentos de esquerda um moderno gnosticismo messiânico na busca de um “mundo melhor” - e, claro, o filósofo Olavo de Carvalho, famoso por criticar a ideologia socialista.

O resultado final do livro é um diagnóstico preciso da mentalidade da esquerda caviar, definida como um grupo de pessoas hipócritas - movidas por culpa, por vaidade, pela busca por poder etc - que adota o discurso socialista, mas segue vivendo no melhor dos mundos oferecido pelo capitalismo.

Esquerda Caviar” é leitura obrigatória e muito agradável. Menos para o pessoal da esquerda.

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