Deve ser creditado ao mesmo o controle da inflação e a colocação da economia nos trilhos. Por outro lado, é dele a responsabilidade pela aprovação de um dos maiores males vividos pelo Brasil e que já havia sido, sabiamente, expurgado pela Constituição de 1988 - a reeleição para presidentes. O mais grave é que aconteceu, naquele momento, o primeiro grande escândalo nacionalmente divulgado de compra de votos no congresso - ao qual FHC conseguiu passar praticamente incólume.
Não se pode, também, ignorar o pensamento nada liberal de FHC, criador dos mecanismos de compra de votos, disfarçados de programas assistencialistas, aperfeiçoados por lula e que muito contribuem para a manutenção do PT no poder.
Fernando Henrique, que - segundo a percepção de muitos - sempre evitou qualquer palavra sobre seu pai, o General Leônidas Cardoso, deixou o Brasil voluntariamente (auto-exílio?) - jamais vivendo as dificuldades de um exilado de verdade, seja por suas origens, condição econômica ou seus contatos. Buscou ser identificado como um socialista, sendo percebido por muitos como um comunista que propaga as virtudes do coletivismo mas que não sabe viver longe de comodidades capitalistas.
De qualquer modo, não há como ignorar a verdade de seu alerta sobre o perigoso caminho percorrido pelo Brasil rumo a um regime autoritário, o que, e isto não é dito no artigo, teve início com algumas medidas alienadoras da soberania nacional adotadas por ele próprio - quem sabe menos por amor ao Brasil e mais por ódio aos militares! Espero, um dia, conhecer algum trabalho relacionado a uma análise profunda sobre as posições de Fernando Henrique e suas eventuais raízes familiares!
FERNANDO HENRIQUE
CARDOSO - O Estado de S.Paulo
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,sinais--alarmantes-,1102780,0.htm
Finalmente se fez justiça no caso do
mensalão. Escrevo sem júbilo: é triste ver na cadeia gente que em outras épocas
lutou com desprendimento. Eles estão presos ao lado de outros que se dedicaram
a encher os bolsos ou a pagar suas campanhas à custa do dinheiro público. Mais
melancólico ainda é ver pessoas que outrora se jogavam por ideais - mesmo que
controversos - erguerem os punhos como se vivessem uma situação revolucionária,
no mesmo instante em que juram fidelidade à Constituição. Onde está a
revolução? Gesticulam como se fossem Lenines que receberam dinheiro sujo, mas o
usaram para construir a "nova sociedade". Nada disso: apenas ajudaram
a cimentar um bloco de forças que vive da mercantilização da política e do uso
do Estado para se perpetuar no poder. De pouco serve a encenação farsesca, a
não ser para confortar quem a faz e enganar seus seguidores mais crédulos.
Basta de tanto engodo. A condenação
pelos crimes do mensalão deu-se em plena vigência do Estado de Direito, num
momento em que o Executivo é exercido pelo Partido dos Trabalhadores (PT), cujo
governo indicou a maioria dos ministros do Supremo. Não houve desrespeito às
garantias legais dos réus e ao devido processo legal. Então, por que a
encenação? O significado é claro: eleições à vista. É preciso mentir,
autoenganar-se e repetir o mantra. Não por acaso, a direção do PT amplifica a
encenação e Lula diz que a melhor resposta à condenação dos mensaleiros é
reeleger Dilma Rousseff... Tem sido sempre assim, desde a apropriação das
políticas de proteção social até a ideia esdrúxula de que a estabilização da
economia se deveu ao governo do PT. Esqueceram as palavras iradas que disseram
contra o que hoje gabam e as múltiplas ações que moveram no Supremo para
derrubar as medidas saneadoras. O que conta é a manutenção do poder.
Em toada semelhante, o mago do
ilusionismo fez coro. Aliás, neste caso, quem sabe, um lapso verbal expressou
sinceridade. "Estamos juntos", disse Lula. Assumiu meio de raspão sua
fatia de responsabilidade, ao menos em relação a companheiros a quem deve
muito. E ao País, o que dizer?
Reitero, escrevo tudo isso com
melancolia, não só porque não me apraz ver gente na cadeia, embora reconheça a
legalidade e a necessidade da decisão, mas principalmente porque tanto as ações
que levaram a tão infeliz desfecho como a cortina de mentiras que alimenta a
aura de heroicidade fazem parte de amplo processo de alienação que envolve a
sociedade brasileira. São muitos os responsáveis por ela, não só os petistas.
Poucos têm tido a compreensão do alcance destruidor dos procedimentos que
permitem reproduzir o bloco de poder hegemônico; são menos numerosos ainda os
que têm tido a coragem de gritar contra essas práticas. É enorme o arco de
alianças políticas no Congresso cujos membros se beneficiam por pertencerem à
"base aliada" de apoio ao governo. Calam-se diante do mensalão e das
demais transgressões, como se o "hegemonismo petista" que os mantém
fosse compatível com a democracia. Que dizer, então, da parte da elite
empresarial que se ceva dos empréstimos públicos e emudece diante dos malfeitos
do petismo e de seus acólitos? Ou da outrora combativa liderança sindical, hoje
acomodada nas benesses do poder?
Nada há de novo no que escrevo.
Muitos sabem que o rei está nu e poucos bradam. Daí a descrença sobre a elite
política reinante na opinião pública mais esclarecida. Quando alguém dá o nome
aos bois, como, no caso, o ministro Joaquim Barbosa, que estruturou o processo
e desnudou a corrupção, teme-se que, ao deixar a presidência do STF, a onda
moralizante dê marcha à ré. É evidente, pois, a descrença nas instituições. A
tal ponto que se crê mais nas pessoas, sem perceber que por esse caminho
voltaremos aos salvadores da Pátria. São sinais
alarmantes.
Os seguidores do lulopetismo, por
serem crédulos, talvez sejam menos responsáveis pela situação a que chegamos do
que os cínicos, os medrosos, os oportunistas, as elites interesseiras que
fingem não ver o que está à vista de todos. Que dizer, então, das práticas
políticas? Não dá mais! Estamos a ver as manobras preparatórias para mais uma
campanha eleitoral sob o signo do embuste. A candidata oficial, pela posição
que ocupa, tem cada ato multiplicado pelos meios de comunicação. Como o
exercício do poder se confundiu, na prática, com a campanha eleitoral, entramos
já em período de disputa. Disputa desigual, na qual só um lado fala e as
oposições, mesmo que berrem, não encontram eco. E sejamos francos: estamos berrando
pouco.
É preciso dizer com coragem,
simplicidade e de modo direto, como fizeram alguns ministros do Supremo, que a
democracia não se compagina com a corrupção nem com as distorções que levam ao
favorecimento dos amigos. Não estamos diante de um quadro eleitoral normal. A
hegemonia de um partido que não consegue deslindar-se de crenças salvacionistas
e autoritárias, o acovardamento de outros e a impotência das oposições estão
permitindo a montagem de um sistema de poder que, se duradouro, acarretará riscos
de regressão irreversível. Escudado nos cofres públicos, o governo do PT abusa
do crédito fácil que agrada não só aos consumidores, mas, em volume muito
maior, aos audaciosos que montam suas estratégias empresariais nas facilidades
dadas aos amigos do rei. A infiltração dos órgãos de Estado pela militância
ávida e por oportunistas que querem beneficiar-se do Estado distorce as
práticas republicanas.
Tudo isso é arquissabido. Falta dar
um basta aos desmandos, processo que, numa democracia, só tem um caminho: as
urnas. É preciso desfazer na consciência popular, com sinceridade e clareza, o
manto de ilusões com que o lulopetismo vendeu seu peixe. Com a palavra as
oposições e quem mais tenha consciência dos perigos que corremos.
* SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA
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